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A única esperança para o Brasil, Cristianismo e cultura literária

23 de abril de 2017 - 12:10:08

Conselho aos meus alunos: Há esperança para o Brasil? Há, mas não adianta vocês a procurarem em parte alguma. VOCÊS são a esperança. Não há outra em todo o horizonte visível.

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Livre arbítrio não é só a capacidade de decidir. Isso até um computador pode imitar. Livre arbítrio é capacidade de decidir E DE ARCAR COM AS CONSEQÜÊNCIAS. Isso os computadores só poderão imitar quando inventarem um computador dotado de responsabilidade moral, civil, penal e “post mortem”. So simple as that.

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Para um povo não cair na loucura e na barbárie, duas coisas não podem parar: a missa e a educação clássica.

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Cultura literária não é ler muitas obras de literatura. É absorver delas, e incorporar na nossa própria alma as inumeráveis superfícies refletoras com que, pela imaginação de muitas vidas possíveis, elas nos ajudam a perceber e compreender a alma alheia.

Quem não quer fazer o esforço para adquirir essa capacidade não tem NENHUM interesse em compreender o seu próximo, e toda a sua presunção de “amá-lo” é pura pose.

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Alguém pode receber do céu, de graça e sem nenhum esforço de auto-aperfeiçoamento cognitivo, o dom de compreender a alma alheia e poder então amá-la?

Pode, mas isso é evidentemente um milagre, e Cristo deixou claro: “Maldita a geração que pede um milagre”. Quanto mais malditos, então, não serão aqueles que acreditam ter DIREITO ao milagre e por isso se consideram dispensados do mero esforço humano de aprendizado?

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TODO o cristianismo é um apelo ao despertar da autoconsciência individual, biográfica, sem a qual o sacramento da confissão se reduz a um mero formalismo exterior. Esse despertar NÃO É FÁCIL nem se realiza num estalar de dedos só porque você teve, como hoje em dia tantos alardeiam com leviandade obscena, “um encontro pessoal com Jesus Cristo”. O PRIMEIRO sinal de uma autoconsciência individual maximamente desenvolvida só aparece com as “Confissões” de Santo Agostinho (397-400 a. D.), e essa obra contrastava de tal modo com a impessoalidade e oficialismo das autobiografias antigas, que durante mil e duzentos anos permaneceu um exemplo isolado, sem disseminar um novo gênero literário. Esse gênero só começará a dar seus primeiros sinais de vida a partir do século XVI.

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Sem o desenvolvimento da arte narrativa, a consolidação da autoconsciência biográfica seria IMPOSSÍVEL. As “Confissões” de Agostinho são o fruto de um milagre, anterior a todo esse desenvolvimento de séculos. A pergunta é: Por que todos os outros seres humanos não receberam o mesmo milagre e, em vez disso, tiveram de esperar muitos séculos até que o desenvolvimento da arte narrativa lhes desse os meios de autocompreensão que Agostinho recebeu do céu? É simples: Deus não quer fazer no seu lugar o que Ele quer que você faça.

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Para quem não está no COF, informo que esses tópicos sobre literatura e consciência autobiográfica foram partes do assunto da aula de ontem.

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Northrop Frye, pastor protestante e, depois de Aristóteles, o maior dos críticos literários, demonstrou em “The Great Code” que praticamente todos os enredos da literatura ocidental provêm de raízes bíblicas.
Dessa observação pode-se concluir, sem erro, que a literatura ocidental inteira é parte essencial do processo que Eric Voegelin chamou “descompactação dos símbolos”, pelo qual os velhos símbolos se apresentam em versões cada vez mais diferenciadas, renovando possibilidades de intelecção que a passagem do tempo ia tornando opacas.

Isso quer dizer que NÃO É A MESMA COISA ler a narrativa bíblica com uma consciência literária desenvolvida e lê-la tão somente com o suporte teológico-dogmático.

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  • Joel Gouveia

    Para um povo não cair na loucura e na barbárie, duas coisas não podem parar: a missa…
    Não concordo com essa parte.

    • Luciano de Aguiar

      Olavo sintetiza nesta frase o pensamento completo do artigo.
      Seria como os protestantes que tentando lavar a Igreja jogaram o Cristo embora com a água.
      Mais leitura do Olavo pra você.

      • Joel Gouveia

        Conheço os artigos do Olavo a anos e também sou aluno do COF.
        Leio o que está escrito e não o que ele esta pensando ou tentando dizer.
        Acho o Olavo genial, mas essa conversa de catolicismo não me convence, nem com toda retorica e eloquência do mundo.

  • Luciano de Aguiar

    “Para um povo não cair na loucura e na barbárie, duas coisas não podem parar: a missa e a educação clássica.” Obrigado Olavo de Carvalho.